A luz da palavra...

A luz da palavra...

                                                                                        Elias Mattar Assad

         Com a profundidade que lhe é própria, principia o livro sagrado dos cristãos: “faça-se a luz...” e as trevas se dissiparam. Com o início da raça humana e antes da descoberta da palavra os homens viviam em espécie de escuridão e a luz começaria a se fazer aos poucos, na exata medida em que se comunicassem.  Hoje, a “luz da palavra” não atingiu seu requinte máximo de perfeição, ou teve seu apogeu e está declinando com paulatina volta às trevas...

         Em recentes solenidades de formaturas, da platéia, observei a facilidade quando nos discursos se usam termos: “constituição”, “legalidade”, “democracia”, “estado de direito”, “justiça”, “justiça social”... E, assim, arrancam acalorados manifestos da platéia. Creio que os aplausos são, em verdade, pela vitória pessoal do formando e não pela comparação do que se fala com a realidade... Se conseguíssemos colocar em um grande livro todos os discursos de formaturas dos últimos vinte anos, de quaisquer áreas, poderíamos fundar uma sociedade “lítero musical” e, nos objetivos sociais, todas as utopias inatingíveis que pinçaríamos dessas belas peças.

         Certa feita, quando falávamos de liberdade de expressão, um senhor chinês nos narrou que em determinada época e ponto da China, a repressão atingira um grau tão elevado que muitas pessoas estavam trocando a palavra por gestos. Assim, imaginavam elas, não correrem riscos de incompreensões ou erradas interpretações, com conseqüências letais.

           Quando nascemos nos comunicamos com a linguagem do sono, da calma, do choro e todos compreendem os recém-nascidos. Como admitir que pessoas adultas e preparadas não entendam o que está escrito nas leis pátrias ou nas solicitações dos cidadãos quando as invocam em seu socorro? Acredito mais que pessoas detentoras de poder entendem perfeitamente e se beneficiam desse “faz de conta da incompreensão” e, enquanto não contidas, vão exercendo seu despotismo, impondo suas vontades pessoais acima das leis, “reinando” em geral sobre os socialmente mais frágeis e desprotegidos... Admitir que se instale em cada sala de repartição pública dos poderes, um “pequeno reinado” com cultura e sistemas próprios, quando o princípio da legalidade buscou exatamente abolir essas práticas, é, sem dúvida alguma, um recuo. Fôssemos uma orquestra e nossas leis as partituras, estaríamos desempregados com nossos instrumentos, pois, no conjunto, produziríamos ensurdecedores ruídos jamais comparáveis com música...

         Lamento o atual quadro de trevas. Palavras: “lei”, “amor”, “justiça”, “direito”, “cidadania”, “respeito”, “prudência”, “fraternidade”, entre tantas preciosidades não podem ser reduzidas a meros sons sem sentido. São termos tão significativos que levam a uma pronta compreensão, em qualquer idioma. De que valem as liberdades públicas, mesmo de expressão ou legalidade na ausência da seriedade? Lembremo-nos que um tiro de canhão ou um “considere-se preso...” têm compreensão e aplicações imediatas.

Não estou aqui exumando o bíblico “surdo que não quer ouvir”, e sim um “falso surdo contemporâneo”, perigoso déspota que funda aí seu reinado.  Talvez o meramente dizer e compreender seja fácil. Difícil será debelar esses “reinados do faz de conta da incompreensão”.  Pior que a “torre de babel”, nossas atuais trevas.  Não estamos nos entendendo embora com um mesmo idioma... 

(escrita em 2004)

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