Um “papai noel” diferente

Um “papai noel” diferente

        Elias Mattar Assad

            Em 1987 escrevemos e este Jornal publicou esta crônica, denominada “pelo produto do saque”. Passados mais de 16 anos uma nova constituição e vários governos, trago-a  para uma análise comparativa com os dias de hoje. Ei-la:

         “A melhor e mais eficaz forma de contratar mercenários sempre foi a oferta, entre outras contraprestações, do produto do saque. A “vis atrativa”, para a carreira policial, alguns (e estes somam grande número) encaram como “inesgotável mina” o produto do saque.

         É um mundo todo próprio onde não há escrúpulos ou ética. A única ética é que os protagonistas sabem de antemão que não há ética. Exemplificando, pode se dizer que um cidadão que anda com sua arma sem porte, para não se submeter a um processo, prefere perdê-la para o policial (produto) que por seu turno comercializa-a clandestinamente, sequer fica a “lei sabendo” (formalmente). Nesta demonstração fica uma situação muito cômoda, pois o proprietário da arma fica em silêncio para não responder o procedimento e o policial corrupto comercializa o produto do achaque obtendo lucro ilegal em proveito próprio. O mesmo ocorre com relação a qualquer outro crime quando dá para fazer o “H” (acerto).

         A pessoa que faz “acerto” com a política perde a paz, pois fica sempre a mercê dos policiais corruptos e cada vez que um deles estiver sem dinheiro lembrará, por certo, do “papai noel” que nos meios policiais não é chamado de otário e sim de “mercadoria” (produz o “pedágio”), que fica com a “obrigação moral” de “quebrar o galho” e, intimidada, acaba “quebrando”. Esta é a razão do fenômeno de uma pessoa que tem problemas uma vez com a polícia e passa a estar sempre com problemas e “inúmeras passagens”.Tudo é motivo para o policial “desconfiar sempre” e para não “levar adiante as coisas” (que ordinariamente não conduziriam a nada) E obter sempre “mais algum” e assim sucessivamente até que o alvo do achaque acabe perdendo  a cabeça e cometendo um delito de vulto.

         Advogados corruptos se associam com a polícia (aqui os semelhantes se atraem) e dividem sempre o produto do achaque e tal se pode constatar quando “o advogado é sempre o mesmo” e “seus casos sempre param pela polícia”, ou ainda, quando quem “indica” é a polícia, tudo em um esquema previamente combinado. Aqui parece que é o limite de dois mundos que se tangem:  o “submundo da justiça” (formado de corruptos que aparentam seriedade) e o “submundo do crime” em negociatas milionárias que sempre estarão imunes e impunes pelas próprias circunstâncias pois, quem deveria denunciar a violação da norma é “calado” com “acertos” !!! E na remota possibilidade de uma denúncia por parte de um quase extorquido a resposta desses policiais é simples, se escudando via de regra assim: “o dinheiro pedido se destinava para honorários do doutor advogado...” (e aqui, evidentemente, o advogado da “societas criminis” confirma, ainda que extorsiva flagrantemente a “pedida”).

         Todos nós sabemos, qualquer do povo sabe, o mais ingênuo dos brasileiros sabe, apenas a “lei não sabe...”

         Tanto em tempos de antanho como nos dias atuais, a melhor maneira de contratar mercenários, o argumento íntimo mais convincente, tanto de piratas ou saqueadores lendários de outrora como em corruptos da atualidade (piores que aqueles por denegrirem e leiloarem todo um sistema), ainda é o produto do saque... que nada mais é que a “justa divisão do espólio dos abatidos...”

                Sempre admirei o jornal “O Estado do Paraná” pela linha editorial e perfil de seus profissionais, um culto ao jornalismo autêntico, sem medo de caras feias... Antes que eu esqueça, as coisas mudaram muito? 

(escrita em 2004)

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