Para oferecer é preciso ter!

Para oferecer é preciso ter!

                                                                                     Elias Mattar Assad

“Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância” (Sócrates).

Quem supervaloriza títulos de mestres, doutores, pós-doutores e outros pomposos, desconhece os bastidores desse macabro palco. Sócrates  adotava a posição de um sábio que apenas "sabe que nada sabe". Como disse Platão: "quem quer que esteja próximo a Sócrates e, em contato com ele, põe-se a raciocinar, qualquer que seja o assunto tratado, é arrastado pelas espirais do diálogo e inevitavelmente é forçado a seguir adiante, até, surpreendentemente, ver-se a prestar contas de si mesmo e do modo como vive, pensa e viveu".

No mercado acadêmico atual até existe uma nova e rentável profissão: “produtores e vendedores de cursos de pós...” tipo quase isto: “temos financiamentos, parcelamos... Diplomas e certificados nacionais ou estrangeiros na mão com registro oficial ou seu dinheiro de volta...”.

Assim, néscios empapelados com seus títulos “sem fundos”, afrontam pessoas e instituições que, aliás, cada vez mais os contratam para ensinar o que pouco ou nada sabem (por valores equivalentes a isto), onde a mentira desbanca a verdade. Os inconseqüentes ditadores do ensino mercantilizado adoram essa troca (relação custo/malefício), bastando observar que quando apresentam projetos de cursos ou instituições de ensino ao Ministério da Educação, os nomes dos professores são uns e após a respectiva aprovação os substituem por outros.  

Nesse rentável universo do faz de conta, parece ninguém estar preocupado com a ciência e com o conhecimento. Interessam sim as estatísticas e o ganho!  Esses discípulos de ninguém, nivelados por baixo, patronos ou vítimas da mentira, desencadeiam a ignorância em progressão geométrica e aqueles autênticos professores, detentores de autoridade moral para dizer verdades e apontar tais chagas do meio acadêmico, são alvos de perseguições, difamações, isolamentos (assédio moral), demissões ou antecipações de aposentadorias. Reprisa-se medievalesca fogueira a ceifar vidas, carreiras, sonhos e reais valores que poderiam incrementar novos procedimentos de produção, uso e disseminação de ciência e de conhecimento, num país disto tudo tão carente.

A ciência se impõe pelo conhecimento e pela prova. A mentira necessita de subterfúgios para se manter. Quando não há dissimulações desses papeluchos, diferenciar mercadores e falsos sábios de cientistas é tarefa fácil. O cientista é isento de ódio, inveja, vaidade, interesses escusos, cultuando apenas o aperfeiçoamento desse maior legado da civilização. Sua prioridade é repassar e perpetuar conhecimentos abrindo novos horizontes, criando e recriando possibilidades e alternativas às mazelas que atormentam a humanidade. Respeitador, ético e paciencioso, quando fala é sincero e não ofende ninguém. Contrariado, sequer utiliza advérbios “nunca” ou “jamais”, pois com a humildade que lhe é própria, pondera: “ainda preciso me convencer desse seu ponto de vista...”. O verdadeiro cientista, como obtempera o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, é apenas aquele capaz de criar “uma ciência prudente para uma vida decente”.

No outro caso, a situação se inverte. Afinal, é necessário parecer orgulhoso, inacessível, arrogante e temperamental para ocultar a falta de preparo e a inércia intelectual. Recomendável observar melhor todas as pessoas do nosso meio (mormente aquelas que mais impressionam num primeiro momento), nas salas de aulas por relatos de alunos, bancas examinadoras, direção e coordenação de cursos, mesmo nas partes finais de escritos quando eles, inseguros, mencionam frenética e desnecessariamente, uma série enfadonha de títulos e honrarias. No bojo deles, nada dizem, apenas citações alheias: “fulano entende assim... O relator do acórdão entendeu diferente... O professor tal discorda de ambos...” De suas cabeças pouquíssimo ou nada sai pois para oferecer é preciso ter!

Para a advocacia e para o magistério temos o interminável exame perante a impiedosa “banca examinadora do mercado” a ditar quem fica e quem sai. Para as outras áreas do direito, quando fazem concursos e conseguem enganar uma única vez o sistema ante a falível banca examinadora de pessoas, com decorebas, colas e macetuosos cursos preparatórios , vem o vitaliciamento. Aqui, quando conseguem nos passar esses “diplomas sem fundos”, enobrecemos essas criaturas e  perpetuamos em bronze suas memórias com exigências protocolares e legais do “excelência” antecedendo o nome, com cerimônia do “beija a mão” e tudo o mais em suas posses...   

Aos cientistas o altar da ciência. Aos mercadores o Código do Consumidor. Leis penais aos plagiatários e estelionatários. Urge uma agência reguladora séria, com um só peso e uma só medida a separar o joio do trigo.

Na tarefa de diferenciar tenha o cuidado que Sócrates não teve, pois a nossa sociedade continua dando cicuta para pessoas erradas... 

(escrita em 2008)

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