Confidências de Criminalistas (V)

Confidências de Criminalistas (V)

Elias Mattar Assad

Prossegue o colega Pedro José Alves, narrando outra experiência onde, como diretor jurídico de uma empresa, atuou no caso de um acidente com um micro-ônibus da sua cliente, que se deslocava do interior para uma grande cidade, transportando pessoas que deveriam tomar um avião para o Rio de Janeiro. Ao se aproximar de um viaduto estreito, o motorista passou sobre um corpo. O motorista explicou-lhe que algo foi arremessado no pára-brisa e que ele não conseguira, embora não corresse muito, frear o veículo, e que no exato momento em que ocorrera o incidente, cruzara por ele, sobre o viaduto mencionado, uma carreta, dessas imensas e cheias de soja. Disse-lhe que parou para ver o que ocorrera, chegando a uns 50 metros, reparou que era um corpo e decidiu "não enfrentar" o que estava por visualizar. Reparou que o retrovisor estava torto e que próximo ao pára-choque havia um pouco de sangue. Após levar seus passageiros parou num posto de serviços onde limpou o veículo e trocou o retrovisor. Considerou o motorista, sem consultar ninguém, que não havia o que temer e foi procurar o delegado do lugar relatando o que ocorrera. Foi indiciado como atropelador (réu confesso) ou frio assassino de um transeunte. Registra Pedro que contratou um advogado criminalista de São Paulo, que examinou a causa, conversou com o delegado e concluiu: "Não há dúvida, doutor, um assassino, irresponsável! É necessário que a empresa compense a família!" Sobrevém um despacho da juíza acenando com acordo no qual o motorista pagaria 20 cestas básicas. Com ele, a empresa teria que indenizar a família. Dando crédito para a narrativa do motorista, Pedro recusa acordo e pede que se produza prova testemunhal com aprofundamento nas existentes inclusive com oitiva de peritos que confeccionaram o laudo e exumação de cadáver. As provas foram deferidas a contragosto pela juíza (salvo a exumação) reclamando da "mania" de advogados , mormente de cidade grande, em "criarem problemas".
Na audiência ficou provado que o ônibus transitava regularmente, que havia um vulto sobre a estrada e a visão foi possível até certo ponto, porque havia um veículo vindo em sentido contrário e seus faróis iluminavam a pista. Em seguida, ouviram um impacto sobre o vidro dianteiro e um solavanco, como se o microônibus passasse sobre alguma coisa. Mais tarde, souberam ser um corpo, por informação do motorista acusado. Aos peritos, duas indagações: primeira: de que morrera a vítima e que parte de seu corpo foi primeiro afetada; segunda: quando a vítima chocou-se contra o pára-brisa era possível estar viva ou já era um cadáver" Com segurança, as respostas foram no sentido de que a vítima foi atingida na altura da coluna cervical pela carroçaria da carreta e que já estava sem vida ao ser arremessada contra o pára-brisa. A juíza, ao absolver o motorista, acabou por agradecer ao advogado, pela "insistência", já que, sem tal aprofundamento teria proferido decisão injusta. Encerra observando que até a audiência , embora a vítima não fosse casada nem possuísse filhos, as pressões dos demais parentes eram grandes contra o motorista e empresa que, em verdade, não eram os responsáveis por aquela morte.
Observo aos leitores que Pedro José Alves insiste em dizer que não é criminalista, o que nos faz lembrar: "Não sou o escultor Michelangelo. Sou Michelangelo Buonarroti".

(escrita em 2008)

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